São Thomé das Letras: o inesperado aguarda você

Não crie expectativas ao visitar a mística cidade mineira. Deixe que o surpreendente lhe receba

Igreja Matriz, São Thomé das Letras (Foto: Gloria Cavaggioni - Da Janela)
Igreja Matriz, São Thomé das Letras (Foto: Gloria Cavaggioni - Da Janela)

São Thomé das Letras sempre foi assim, de supetão. Algo de inesperado está à espreita, nos aguardando. A pequena cidade teima em nos surpreender.

Teve a vez que chegamos bem no dia do padroeiro. As janelas enfeitadas das casas ao longo das ruas calçadas com pedras e uma multidão católica seguindo em procissão, com cruzes, imagem do santo e banda da escola. A cidade, conhecido ponto turístico dos bichos-grilos, nos mostrou sua face tradicional logo à chegada.

São Thomé das Letras (Foto: Wanderley Garcia - Da Janela)
São Thomé das Letras (Foto: Wanderley Garcia – Da Janela)

Dizer que a brisa de São Thomé das Letras é intensa e diferente não passa de uma redundância desnecessária, mas levar os filósofos Adorno e Benjamin para uma visita à cachoeira da Eubiose não é exatamente uma ação ortodoxicamamente marxista. Mas em São Thomé, nada pode ser ortodoxo.

Até o quarto da pousada, que apelidamos carinhosamente de calabouço, tinha seu charme, mesmo com o chuveiro mais baixo que nossas cabeças.

Pirâmide, São Thomé das Letras (Foto: Wanderley Garcia - Da Janela)
Pirâmide, São Thomé das Letras (Foto: Wanderley Garcia – Da Janela)

A primeira referência que tenho da cidade foi do relato da amiga Angélica sobre a cachoeira Shangrilá: banheiro da Barbie com as pedras mineiras rosadas ao passar da água sob o sol. Mas o encanto veio mesmo das borboletas em seu vale, numa pequena queda d’água que tira o fôlego pela beleza e pelo frio que percorre a espinha. Apenas quando se está no Vale das Borboletas é que se compreende o nome do lugar.

Em São Thomé, muita coisa só faz sentido vivendo o lugar, seus encantos surpreendentes. Percorrer a gruta de Sobradinho nos oferece à saída um espetáculo que só o contraste da luz e do breu no correr das águas pode nos oferecer.

Conheci a Ladeira do Amendoim sem saber do que se tratava, em tempos pré-Google. A ignorância torna a experiência mais exótica e inacreditável. Mas estávamos ali, vivendo o que apenas São Thomé nos oferece. A lógica vira de ponta cabeça e desafia tudo o que sabemos ser o certo. Por isso, faz tanto sentido os arbustos que chacoalham na beira da estrada, enquanto hippies vendem seus artesanatos no Vale da Lua.

Vale das Borboletas, São Thomé das Letras (Foto: Gloria Cavaggioni - Da Janela)
Vale das Borboletas, São Thomé das Letras (Foto: Gloria Cavaggioni – Da Janela)

Tudo sai do roteiro esperado. Um cantor aparece na noite, violão em punho, em busca de um cigarro, e nos surpreende. Nega-se, ofendido, a tocar Raul na calçada. Só tocava obras autorais. Estou falando é de São Thomé das Lendas.

No Alquimista, o tutu especial espera por nós, que estamos com apetite reforçado após a visita à pirâmide e a vista deslumbrante a 1400 metros de altitude. Vinho e fogueira na laje de pedra convidam a viver sob as estrelas.

São Thomé das Letras (Foto: Wanderley Garcia e Gloria Cavaggioni - Da Janela)
São Thomé das Letras (Foto: Wanderley Garcia e Gloria Cavaggioni – Da Janela)

São Thomé contrasta com suas gentes: o caipira mineiro nativo, os místicos, os estudantes em busca de liberdade. Povos que se encontram e harmonizam, não sem tensão, nas diferenças.

Não vá para lá com muitas expectativas. Tudo sairá diferente do que imagina. Será melhor. São Thomé nos espera e nos brinda com o inesperado e, se você se deixar levar, pelo imponderável.

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