Paulo Betti me conquistou

Por meio de lembranças pessoais o ator revela nuances e características da nossa cultura

Paulo Betti conta sua história
No monólogo Autobiografia Autorizada o ator conta sua história Foto: divulgação

Não sou do tipo tiete, apesar de me encantar com o trabalho de vários artistas. Costumo afirmar que admiro o trabalho artístico, não a pessoa, coisa de gente anti-social talvez… Mas confesso que não é raro entrar na wikipédia pra saber onde um cantor nasceu, a idade de uma atriz ou conferir em que ano mesmo aquele poeta que tanto gosto morreu.

Para contrariar minha própria teoria de que o artista em si não interfere na minha opinião sobre seu trabalho tenho que admitir que depois de assistir a um documentário ou entrevista que revele mais sobre a pessoa passo a gostar mais ou menos de sua obra… Normalmente mais, porque me interesso em saber sobre quem já nutro uma certa simpatia. Mais um sintoma de pessoa fechada…?

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Mas a vida é generosa comigo e vira e mexe os ventos me trazem sempre boas novidades. Paulo Betti não pode ser chamado de novo em meu caminho,  tive a sorte de me deliciar com vários trabalhos do ator. Como esquecer do Timóteo da novela Tieta, casado com “Élisa”? O pobre padecia de uma dor no “estombro” terrível que o atacava toda vez que precisava enfrentar uma situação incômoda ou difícil. Até hoje em minha família fazemos brincadeiras com a palavra “estombro” lembrando o dono da loja de tecidos que gostava de tudo “nos trinks” interpretado pelo ator.

A novidade veio assistindo uma live em que Paulo Betti canta um trechinho do Rio de Lágrimas – a famosa música que fala do rio de Piracicaba, minha terrinha tão querida, conta recordações da cidade e seus lugares, exalta nossa cultura caipira e pra arrematar lembra do nosso hino, coisa que muito piracicabano não é capaz de fazer.

Se eu já simpatizava com o homem e o admirava como artista depois disso ele me conquistou de vez. Fisgada por sua simpatia e calor estou ansiosa para assistir sua peça, Autobiografia Autorizada.

Na peça, dirigida por Paulo Betti e Rafael Ponzi, o ator conta sua história. E em sua narrativa familiar constrói a memória coletiva de uma época, de uma cidade (ele cresceu em Sorocaba) e ilumina diversos pontos de nossas raízes. Partindo de seu percurso da roça até o status de ator consagrado, Paulo Betti apresenta personagens como a mãe analfabeta que na cidade trabalha como doméstica e consegue criar 15 filhos, o avô imigrante italiano que curiosamente trabalha de a meia para um fazendeiro negro, o pai esquizofrênico… e por meio de lembranças pessoais revela nuances e características da nossa cultura tão rica, mas nascida na convivência conflituosa entre negros, europeus e índios e nutrida com as diferenças de oportunidades e contradições do capitalismo.

“Minha fixação pela memória da infância e adolescência, passada num ambiente inóspito e ao mesmo tempo poético, talvez mereça ser compartilhada no intuito de provocar emoção, riso, entretenimento e entendimento” (Paulo Betti).

Como não poderia deixar de ser em tempos de pandemia, o espetáculo é transmitido via internet, mas encenado no teatro, com luzes, trilha sonora, cenário, figurinos, nenhum componente de uma produção teatral fica de fora. Nem mesmo a plateia. A cada apresentação uma pessoa assiste presencialmente, representando todos os outros que estão on-line.

A peça está em cartaz de 9 a 30 de julho, sempre às quintas-feiras às 17h. Os ingressos custam R$10,00 e podem ser adquiridos no site do Teatro PetraGold.

Apesar da  minha vontade de saber o que Paulo Betti tem a nos contar terei que esperar até o último dia. Para um programa assim é preciso dedicação exclusiva, algo impossível quando se tem crianças em casa… Esperar é uma verdadeira tortura para uma pessoa ansiosa como eu. Mas pela amostra que tive com a live (em que ele conta um pouquinho da peça) vale a pena esperar e poder usufruir de todas as emoções que esse monólogo pode suscitar, sem ter que socorrer vítimas de tombos de bicicleta ou pé enfiado em formigueiro.

Serviço

Autobiografia Autorizada
Transmissão on-line
Quintas-feiras de 09 a 30/07
17h
Ingressos: R$10,00
Duração: 90 min
Classificação: 12 anos

 

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